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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Filme #137 – Um Grito no Escuro (A Cry in the Dark, 1988)

Uma família despedaçada. Um público cheio de indignação. Uma mulher acusada de assassinato.

Num acampamento no deserto da Austrália, Lindy Chamberlain afirma ter visto um animal selvagem capturar seu bebê e desaparecer com a criança. O corpo nunca é encontrado, e a polícia nota aparentes contradições no depoimento da mãe e a acusa de homicídio. O caso atinge a esfera nacional, torna-se assunto de discussões e desperta o interesse da mídia, que transforma tudo num verdadeiro circo.

Lindy e Michael Chamberlain são interpretados por Meryl Streep e Sam Neil, respectivamente

O filme é uma adaptação para o cinema de um caso que abalou a justiça australiana em meados de 1980. O casal Michael Chamberlain (1944-2017) e Lindy Chamberlain (no filme interpretados por Sam Neil e Meryl Streep, respectivamente) acampavam com a família numa região turística na Austrália. Numa noite, a mãe viu seu bebê de nove semanas ser levado por um dingo para fora da barraca. Muitas pessoas saíram para procurar o bebê, mas ninguém o encontrou. As buscas dão em nada e o comportamento estranho do casal de adventistas passa a ser alvo de desconfianças. Não demora a surgir boatos acusando-os de fanatismo religioso. O caso cai nas graças da imprensa e num primeiro julgamento eles são absolvidos. O filme tem um tom documental e mistura cenas de julgamento com opiniões da população da cidade, a maioria contra a ré.

Após um primeiro período de compaixão da comunidade pelo sofrimento do casal Chamberlain, vários boatos maliciosos começaram a circular nas ruas e na mídia. A mãe, então, foi acusada de matar a própria filha – ou numa explosão de depressão pós-parto ou num suposto ritual religioso adventista. A cobertura jornalística sensacionalista e o preconceito religioso se misturaram a motivações políticas locais e, num julgamento sem provas conclusivas que tomou proporções inéditas no país, Lindy Chamberlain foi condenada à prisão perpétua.

Em 15 de setembro de 1988, após passar três anos e meio na prisão, o verdadeiro casaquinho que o bebê usava na noite do fatídico evento foi encontrado com evidências de que teria sido atacado por um dingo. Lindy Chamberlain foi libertada e declarada inocente de todas as acusações.

Nesse caso podemos constar tantos absurdos, tantos erros e tantos preconceitos! A começar que o casal Chamberlain era adventista do sétimo dia e, seguramente, a ignorância em torno das práticas de culto e do estilo de vida dos adventistas na Austrália (ou pelo menos na pequena cidade onde moravam) incitou a população local a espalhar a falsa suposição de que o nome do bebê, Azaria, significava “sacrifício selvagem”, mesmo que sacrifício humano sempre foi uma prática impensável no Adventismo do Sétimo Dia.

Assim como no filme, o comportamento de Lindy durante todo o processo, não demonstrou ser a vítima materna que muitos esperavam. Ela não era dada a rompantes de choro em público e falava com calma e firmeza durante as entrevistas. Ela não era uma personagem de “novela”, digamos assim. Ela foi taxada de mulher fria e sem emoções, capaz de matar um bebê. Ele definitivamente não se comportava como uma mãe vitimizada, mas como alguém irritada com o absurdo das falsas acusações e cujo rosto expressava profunda amargura. O filme não é uma produção evangélica, mas credita a serenidade do casal a sua confiança em Deus e à crença adventista na esperança de rever sua filha na ressurreição (por ocasião da segunda vinda de Cristo).

Com direção de Fred Schepisi, esse filme é um poderoso soco no estômago daquela parcela irresponsável da imprensa que se nutre de sangue e lágrimas, promovendo circos públicos no intuito de vender mais jornais ou conquistar melhores índices de audiência. Podemos ver mesmo nesses casos midiáticos de assassinatos, o perigo que a mídia e a opinião pública, quando mal direcionadas, representam para a liberdade individual. Hoje em dia com as redes sociais, o erro da certeza que nasce após a leitura de uma manchete sensacionalista, algo tão atual em nossa realidade imersa nas mídias sociais, um espaço onde pessoas compartilham notícias falsas sem preocupação alguma em checar as fontes. Ou compartilhar fotos de pessoas com títulos tendenciosos e sem verificar a fonte. Tudo isso faz refletirmos de estarmos 'condenando' alguém sem provas. 

Em 2012, o caso foi reaberto, após 32 anos de mistério do desaparecimento e morte bebê: uma médica legista determinou que Azaria Chamberlain não foi morta por sua mãe em 1980, e sim levado por um cão selvagem. Inocentando os pais de todas as acusações. 

Para quem se interessa pelo caso, recomendo pesquisar mais a respeito e claro, assistir ao filme que retrata isso de forma bem fiel. Recomendo!
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